A gloriosa epopéia do Paulistano na Europa – 1925

Gazeta Esportiva de 1960 – Antonio Mazzoni

É o time do Paulistano que conquistou os europeus!

Depois que os uruguaios conquistaram as Olimpíadas de 1924, a Europa começou a se interessar pelo futebol sul-americano. Assim, um ano depois, cruzaram o atlântico rumo ao velho mundo, o Paulistano do Brasil, o Nacional do Uruguai e o Boca Junior da Argentina, três dos maiores membros da alta aristocracia do “association” da América do Sul.

O projeto do Paulistano foi cuidadosamente elaborado e posto em prática em princípios de 1925 e bem acompanhado pelo Museu dos Esportes. Achando-se então na França, o senhor Antonio Prado Junior entabulou negociações com os poderes esportivos franceses, encontrando da parte do Stade Français o acolhimento mais animador e o tratamento mais cavalheiresco. E assim telegrafando para o Brasil, fez com que se iniciassem os preparativos da partida, nos quais trabalharam de modo decisivo o vice-presidente, o segundo tesoureiro e o diretor esportivo do clube. A este foi entregue a espinhosa tarefa de levar a delegação á Europa.

O Paulistano partiu de São Paulo no dia 10 de fevereiro assim composta:
Chefe: Orlando Pereira.
Capitão do time: Sergio Pereira.
Jogadores: Julio Kuntz Filho. Nestor de Almeida. Clodoaldo Caldeira. Bartolomeu Gugani. Caetano Caldeira. Mauricio Vilela. Epaminondas Motta. Francisco Abate. João Mestre Alijoste. Ernesto Pujol Filho. Antonio Carlos Seixas. Artur Friedenreich. Mario Andrade e Silva. Amphiloquio Marques. Arakem Patusca. Dr. J.J. Seabra. Dr. Durval Junqueira Machado. Miguel Feite e Luiz Lopes de Andrade.
Acompanharam a delegação as senhoras Sergio Pereira, Julio Kuntz e Mario de Macedo.
E, representando a imprensa brasileira, os senhores Dr. Américo Rocha Neto do Estado de São Paulo e Mario Macedo do São Paulo Esportivo.

O encontro de estréia foi entre o Paulistano e o selecionado representativo da França, realizando-se no grande gramado de Bufallo, as portas de Paris. A assistência foi avultadissima uma das maiores registradas na França, tendo comparecido o ministro do Brasil. Dr. Souza Dantas e o ex-governador de São Paulo, então candidato a presidente do Brasil, Dr. Washington Luiz, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, o governador de Paris e o representante oficial do governo francês além de toda colônia brasileira, contando-se mesmo, muitas pessoas vindas do interior da França e até da Suíça, só para assistir o encontro. A condição atmosférica era desfavorável, pois fazia muito frio e estava nevando um pouco. O campo, pelo mau estado de conservação, representava para os brasileiros grande desvantagem. O encontro desenvolveu-se normalmente, estando os quadros assim constituídos:
Paulistano: Nestor. Clodoaldo e Barthô. Sergio. Nondas e Abate. Filô. Mario. Friedenreich. Arakem e Netinho. Selecionado francês: Cottenet. Vignoli e Manzannaréz. Dupoiz. Bel e Bonnardel. Cordon. Accard. Liminana. Bardot e Gallay.
O resultado foi de 7 tentos a 2, favorável aos brasileiros. Mereceu esta vitória os mais francos elogios da imprensa e dos esportistas franceses, tendo extraordinário relevo nos jornais brasileiros e argentinos. O jornal francês “Lê Journal” crismou os jogadores do Paulistano, chamando-os “Les Róis du Football”. Os gols foram anotados por Friedenreich três. Mario. Barthô. Filó e Araken para os brasileiros e Bardot e Galoy para os franceses.

Dois dias depois deste triunfo o embaixador do Brasil, Dr. Souza Dantas, oferecia a delegação brasileira um banquete em que tomaram parte todos os elementos dela e as personalidades de mais destaque na imprensa e nos esportes da França, achando-se presentes, também, muitos jornalistas e correspondentes ingleses e norte-americanos.

No dia 22 de março o Paulistano disputou seu ultimo jogo em Paris. Encontrou-se, ainda no campo do Bufallo, com o quadro do Stade Française, um dos mais fortes clubes da França, num dia chuvoso, também com neve e ganhou por 3×1, com gols de Friedenreich
Terminado o encontro, a delegação ofereceu aos diretores do Stade Français um jantar, realizado no Hotel Mont-Thabor.

No domingo, dia 29 de março, o Paulistano jogou em Cette, contra o Cette F. C., clube local. O Paulistano perdeu por 1×0. Sua única derrota em dez jogos. Depois o Paulistano seguiu para Bordéos. No dia 2 de abril, encontrou-se com o Bastidienne, vencendo por 4×0. Friendenreich assinalou três gols e Arakem completou o marcador. Antes do jogo, o cônsul brasileiro em Bordéos, Dr. Matheus de Albuquerque, ofereceu fina recepção a delegação do Paulistano. E na própria manhã do jogo os estudantes e moços formados da delegação, em numero de onze, foram recebidos na tradicional Universidade de Bordéos, como candidatos e portadores de títulos científicos. Dentre todas as delegações esportivas que então visitavam a Europa só a do Paulistano mereceu esta alta e especial distinção.

De Bordéos a delegação regressou a Paris, para no dia 5 de abril ir a Havre, jogar contra o clube do mesmo nome. O Paulistano venceu mais uma por 2×1, gols de Netinho e Friedenreich. Depois do jogo não houve festas, porque tinha falecido, na véspera da partida do presidente do Havre.

Voltando a capital francesa, o Paulistano preparou-se para a parte mais difícil. Tratava-se de sair da França, ir á Suíça, onde se encontram alguns dos melhores jogadores europeus. A delegação partiu, passando por Strasburgo, onde tinha que jogar contra o Strasburgo. Nesta cidade, os brasileiros tiveram uma recepção impressionante, pois teve convite oficial pata visitar a Prefeitura onde foi acolhida como hospede especial da cidade, visitando depois alguns estabelecimentos industriais. No futebol, o jogo foi disputado no dia 10 de abril e o Paulistano ganhou outra vez: 2×1. Seixas e Friedrenreich anotaram para os brasileiros. Depois do jogo, a delegação seguiu, a noite, para Berna, onde na tarde do dia seguinte enfrentou o Auto Tour. Nova vitória por 2×0. Mario e Filó foram os artilheiros do jogo. Estava presente ao encontro o presidente da Confederação Helvética, Sr. Musy. Em Berne o Paulistano foi objeto de distinções especialmente tendo da parte do nosso ministro, Dr. Raul do Rio Branco, a mais cordial acolhida. Na recepção que o representante do Brasil deu a noite, no Hotel Belleuve, compareceu o presidente da Suíça que fez questão de cumprimentar toda a delegação brasileira.

De lá para a Suíça!

De Berne o Paulistano foi para Zurich. Ai culminou a tournée, pois enfrentou, praticamente, o selecionado nacional suíço composto, em grande parte, de jogadores do Young Fellows e do Grasshorppers, vencendo-o por 1×0 gol de Mario.

De volta a Paris o Paulistano começou a se preparar pa o regresso, a despeito de contar com inúmeros convites para jogar em outros países. Tinha na França um ultimo jogo em Rouen no dia 19 de abril. O Paulistano venceu por 3×2, e muita gente ganhou grana fazendo trading. Gols de Mario dois e Friedenreich. Poucos dias antes da partida da delegação, o presidente ofereceu um almoço de despedida, ao qual compareceu o Sr. Washington Luiz. Nessa reunião os elementos da delegação ofereceram-lhe com lembrança, um mimo artístico. Na véspera da saída de Paris, o Stade Français ofereceu um jantar aos diretores do Paulistano, fazendo-se na ocasião, as despedidas.

Os brasileiros deixaram Paris no dia 23 de abril, embarcando em Cherbour, no navio holandês “Flandria”, a bordo do qual foram cumulados de gentilezas. De passagem por Lisboa, receberam convite dos dirigentes locais para desceram a terra e enfrentarem a seleção de Portugal. Este jogo vinha se entabulando desde da passagem de ida pela capital lusitana. Foi o último jogo do Paulistano na Europa. Foi a última vitória dos brasileiros: 6×0. Os gols foram de Friedenreich dois. Mario dois. Filô dois. O segundo tempo durou apenas 30 minutos, a fim de que a delegação do Paulistano não perdesse o navio de retorno ao Brasil.

E a volta…

O regresso foi apoteótico. Desde do Recife até São Paulo, a torcida brasileira vibrou. Na Bahia, em Santos e no Rio, as manifestações continuaram em ritmo de festa. No cômputo geral, foram dez jogos com nove vitórias e uma derrota. O ataque marcou 30 gols e sofreu 8. Os artilheiros foram Friedenreich com 11 gols. Mario 8. Filó 4. Netinho. Arakem e Seixas 2. Barthô 1 gol.

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