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Garrincha, a alegria do povo
O mito Garrincha se constitui a partir de um núcleo central. Na história do futebol brasileiro, talvez ele tenha sido o jogador que melhor sintetizou qualidade estética e eficiência. A
arte se concentrava no balé desnorteante das fintas, vício
transformado em virtude pela via das pernas tortas, tema já tão
cantado e decantado que se tornou banal. Essa virtude, brilhante em si
mesma, estava também a serviço de um objetivo fundamental: a busca
do passe decisivo ou do gol, obtido a partir de um ângulo que fazia e
faz coçar a cabeça dos matemáticos. Em poucas palavras, Garrincha não
era um viciado da finta pela finta, como tantos outros jogadores que
chegam a driblar a própria sombra: era um artista da bola, não de
circo, com todo o respeito devido a estes últimos. A
síntese realizada por Garrincha encarna tudo que o torcedor
brasileiro espera de seus grandes times e de seus astros de futebol. O
torcedor não se contenta apenas com a vitória. Ela só é plena
quando vem acompanhada da qualidade artística individual e coletiva,
da demonstração de uma imensa superioridade sobre o adversário, no
plano da eficácia e da estética. Vitórias com Garrincha em campo
eram sempre desse tipo, triunfos na plenitude da expressão. Como
poderia haver euforia com um título obtido por um time amarrado a um
esquema tático sem brilho, resultando em penosas vitórias. Como
poderia haver euforia diante de uma vitória final sem gols, obtida
ironicamente graças a um raro dia de inspiração celeste de Taffarel
? Por
outro lado, Garrincha representou uma versão radical de uma época do
futebol brasileiro que começava a desaparecer em seu tempo: a época
da profissionalização incipiente, que se traduzia nos baixos salários
e na emotividade dos dirigentes. Os
astros do passado ganharam apelidos fantásticos: Domingos da Guia, o
Divino Mestre; Leônidas da Silva, o Homem de Borracha, mas não
ganharam muito dinheiro. Além
disso, o baixo grau de profissionalização, refletido em menores exigências
com relação ao jogador, a perplexidade deste diante da fama
resultaram na aparição de figuras boêmias, propensas à autodestruição,
de que Garrincha foi um claro exemplo. Esse fato não se restringiu ao
futebol, mas a outras formas do lazer de consumo popular, que tinham
também características de baixa profissionalização, como se pode
constatar, no caso da música, com os exemplos de um Sinhô, de um
Noel Rosa e de tantos outros. Nossa
modernidade esportiva, a exemplo da sócio-política, carrega e
combina traços do passado. Basta lembrar os calendários desvairados,
ou a flutuação no sistema de pontuação, que os dirigentes impõem
ao cada vez mais arredio torcedor. Apesar disso, não há dúvida de
que a modernidade chegou e chegou pela via da globalização. A
mudança correspondeu, em parte, a um capítulo pouco explorado da
sociologia esportiva, ou seja, a implantação do futebol em novas
regiões do mundo, como a Arábia Saudita, os reinos dourados do golfo
Pérsico e o Japão. A Arábia foi a primeira Meca da globalização,
exigindo de técnicos, jogadores e suas famílias, um enorme esforço
de adaptação. O mundo esportivo árabe era difícil de ser
decifrado, pois combinava riqueza com estruturas organizatórias
unipessoais: os altos salários dependiam da boa vontade dos príncipes,
donos dos clubes e dos passes, gente acostumada a impor sua vontade. Porém,
não foi por acaso que a Europa ocidental atraiu com maior constância
e êxito os grandes nomes do futebol brasileiro. A prosperidade
generalizada dos vários países e o grau de organização
possibilitaram a implantação de um futebol altamente
profissionalizado, a que nossos astros se adaptaram com enorme êxito. Nada
mais distante do mundo de Garrincha do que o futebol globalizado. Não
é possível imaginá-lo às voltas com os contratos milionários, com
a adaptação ao ambiente, com as exigências impostas por uma
rigorosa profissionalização. Diante das mulheres veladas, das regras
de abstinência, dos homens e mulheres de olhinho puxado, Garrincha se
sentiria completamente perdido. Alguém
poderia dizer, comparativamente, que os tempos de hoje perderam a graça,
que a graça estava na improvisação e na espontaneidade absolutas,
na liberdade irresponsável do jogador, fugindo às artimanhas dos
dirigentes. Mesmo
reconhecendo as mazelas do presente, é bom lembrar que essa atitude
corresponde a uma idealização do passado. Neste sentido, a história
de Garrincha é exemplar. É evidente que na sua trajetória existem
traços marcadamente pessoais sugeridos, por exemplo, pelos destinos
contrastantes dele e de Pelé. Na
carreira de Garrincha, essa combinação se revela em muitos aspectos:
na incapacidade de gerir seus recursos, seria simplificador pôr toda
a culpa nos dirigentes; na despreocupação com os esquemas táticos e
com a natureza do adversário, gerando tantas anedotas, verdadeiras ou
não; na propensão à autodestruição, sobretudo quando o inevitável
declínio seguiu-se aos anos de glória. |
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