A alagoana que dominou os tatames do mundo

tribuna de alagoas

       Um ano decidido em oito minutos. Esse é o resumo de um trabalho intenso, de muita dedicação mas, acima de tudo, de falta de valorização. O desfecho, improvável para alguns, foi a conquista do quarto título mundial de jiu–jitsu pela atleta alagoana Bianca Andrade, ocorrido no último domingo, no ginásio do Tijuca Tênis Clube, no Rio de Janeiro. Contudo, se a medalha é um recorde histórico, a trajetória que a precedeu é digna de uma saga. Oriunda do boadybording, Bianca vislumbrou no jiu–jitsu uma oportunidade para desenvolver seu potencial como atleta. Entretanto, nada a preparou para uma carreira tão bem–sucedida. Treinada pelo mestre Diojone Farias, a alagoana de 34 anos vive, segundo sua avaliação, o melhor momento da carreira, embora ainda conviva com problemas como falta de patrocínio apenas às vésperas do Mundial de 2005 foi escolhida pelo Bolsa–Atleta do Governo Federal , falta de estrutura para treinamentos, viagens e alimentação inadequada, isso tudo sendo a única brasileira, até então, detentora de quatro títulos mundiais na categoria. Às vésperas da competição para a qual se preparou durante um ano, Bianca tentava conseguir o dinheiro que lhe garantiria a inscrição no Mundial. O valor: R$ 100,00. A atleta recorreu a empresários locais e ouviu a resposta habitual: Não. Mas esse era apenas o primeiro obstáculo a ser vencido. Após a obtenção do valor da inscrição, pago por ela e pelo treinador, Bianca precisou ficar hospedada na casa de parentes no Rio de Janeiro. Mais uma vez, a atleta ignorou a adversidade. A partir daí, o cenário se tornou familiar, mas não menos assustador. No ginásio do Tijuca Tênis Clube, que recebeu público de quase seis mil pessoas, Bianca enfrentou suas adversárias sozinha, sem torcida, sem amigos, e o mais inacreditável, sem treinador, que não pôde viajar devido a dificuldades financeiras. Bianca ainda precisou lidar com o barulho da torcida e buscar concentração para "bater" suas adversárias. Mas uma campeã é forjada na adversidade e Bianca Andrade nasceu para os holofotes. "Acredito muito no que sei e no que o técnico me passa", decreta. "Quando cheguei ao ginásio ninguém me conhecia, era apenas mais uma atleta. Na última luta, contra Leticia Ribeiro, todas as câmeras estavam voltadas para mim, é uma sensação incrível", conta Bianca. A alagoana finalizou a luta contra a francesa Laurence Cousin (campeã da última Copa do Mundo) e venceu outra brasileira por pontos. "Nunca estive tão bem. Cheguei ao Mundial motivada e consciente de tudo que posso fazer. Fiquei concentrada durante três dias, para não desperdiçar energia. Ao contrário de suas adversárias, Bianca Andrade não estuda os movimentos das demais atletas. "O jiu–jitsu é um xadrez de corpo, e embora elas possam antecipar alguns dos meus movimentos, uma vez que me determine a dar um golpe, eu provavelmente irei executá–lo", defende Bianca.
Bianca é conhecida pela versatilidade dos seus golpes e capacidade de concentração, e mesmo sem receber o tratamento adequado a uma campeã do seu nível, afirma não lamentar suas escolhas. Agora, a tetracampeã volta suas atenções para um novo projeto, conseguir patrocínio para levar seis alunos, de 5 a 15 anos, para participar do Brasileiro Infantil de Jiu–jitsu, que acontece em novembro, no mesmo ginásio que consagrou a alagoana.
(2005)