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A tragédia de Sarriá - 1982
Revista Placar
O craque Falcão vibra muito depois de empatar o jogo contra a Itália.
A Bruno correu para os braços de Zico, que o abraçou forte e lhe deu três beijos. Depois, virando o rosto para Sandra, sua mulher, cruzou com ela um silencioso olhar de desolação. Não havia nada a dizer. O Saguão do Estádio de Sarriá, em Barcelona, estava cheio de gente, mas o que se via eram apenas policiais de gestos espantados e jornalistas de rostos pálidos que tentavam encontrar alguém que respondesse a uma pergunta: por que perdemos ?
Naquele momento, quando o mais sufocante calor deste verão ainda castigava a capital da Catalunha, Paolo Rossi passou correndo por Zico, sem sequer notá-lo, com um sorriso tão grande que seu rosto parecia subitamente crescido. Atrás dele, outros jornalistas também lhe fazia uma pergunta sem resposta: “come há fatto l’Itália a battere il Brasile ?
Na verdade, havia uma solução aparentemente simples para o enigma de uma tragédia que atingira o futebol brasileiro com o impacto surpreendente de um soco desferido à traição. Ela talvez tenha sido dada um pouco antes pelo treinador Telê Santana, ao transformar em dolorosas, realistas palavras o sentimento de perplexidade que tomara conta dos jogadores, das 40 mil pessoas e, sobretudo, do povo brasileiro.
“Não somos imbatíveis. Eu sempre soube que no dia em que cometêssemos falhas e essas falhas fossem aproveitadas pelos adversários, nós perderíamos. Infelizmente isso aconteceu diante da Itália”.
É possível que a razão fosse a de Falcão, que, como um galo ferido, mantinha a postura de um bravo que não abaixa a cabeça no instante definitivo da verdade – “Sempre que tentávamos fazer a Itália entrar em nosso ritmo, eles chegavam a outro gol. Perdemos todos nós. Mas é preciso que vocês tenha claro que essa derrota terá que ser esquecida, porque haverá outras Copas nas nossas vidas”.
Sim, novas Copas, novas emoções, novas vitórias. Infelizmente, porém, o mundo maravilhoso do futebol registrará para a eternidade, como um inexorável marco dramático, o 5 de julho de 1982 - dia em que a melhor, mais criativa e mais corajosa seleção deste campeonato se viu batida por um azarão que, em uma semana, alcançou a quase impossível transição da mediocridade para o heroísmo.
Esse jogo, sem dúvida, entrará para a história do esporte como uma exemplar exibição de técnica, de arrojo, de força e de superação. Mas, o fato é que perdemos. Culpar Leandro, que permitiu o cruzamento de Cabrini no primeiro gol, logo aos 4 minutos ? Cerezo, que errou um passe bobo no segundo ? A defesa inteira, que não pôde cortar a bola vinda na cobrança de um escanteio no terceiro ? A Serginho, que desperdiçou oportunidades preciosas ? Ou a Eder, meio impotente ante a corretíssima atuação de Oriali ? Dentro desse raciocínio, seria igualmente possível fazer do esplêndido Zoff, do magnifico Tardelli, do empolgante Cabrini ou do brilhante Paolo Rossi, carrascos da alma nacional.
De uma forma ou de outra, sepultamos os inesquecíveis 90 minutos em que, apenas três dias antes, na fantástica tarde de sexta feira, os argentinos haviam sido destronados definitivamente do titulo conquistado há quatro anos, pelos 3x1 que aplicamos de maneira sensacional. Foi essa a contribuição da seleção brasileira para o futuro do futebol. “Fizemos o que devia ser feito” – resumia Telê Santana seus dois anos de trabalho.
Que nunca mais se jogue tão somente em função do zero a zero. Que se abandone as retrancas, Que se abomine a covardia e que se pense em futebol como uma manifestação da arte brasileira, mesmo que o preço de se acreditar seja dilacerante como o de 5 de julho de 1982. Porque assim, em 1986, quando tiver sete anos e começar a entender melhor a vida e um de seus maiores prazeres – o gosto de vibrar em um estádio ensolarado – o pequeno Bruno Coimbra dividirá seu sorriso com cada menino que hoje chora no Brasil.
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